INTERNACIONAL
Analistas apontam BRICS como alternativa aos EUA, cuja liderança global está sob desconfiança
Interesse crescente em ingressar no bloco mostra que cada vez menos os países estão dispostos a se curvar às normas ocidentais ao firmarem parcerias
Na semana passada, os chanceleres de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul lideraram na Cidade do Cabo uma reunião do BRICS. Um assunto que dominou o encontro foi a possível adesão de novos países, com destaque para Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos. Mais que um negócio de ocasião, o interesse dessas nações em ingressar no bloco econômico é apontado por analistas ouvidos pela revista Newsweek como sinal de que a liderança global exercida pelos EUA está enfraquecida, conforme o bloco encabeçado por Moscou e Beijing ganha força.
De acordo com Chris Devonshire-Ellis, presidente da empresa Dezan Shira & Associates, que se dedica a fazer negócios na Ásia, o BRICS é o principal expoente das atuais transformações na ordem internacional. “Os principais impulsionadores têm a ver com uma crença geral de que os Estados Unidos se tornaram não confiáveis e autoritários em sua política externa”, disse ele.
O analista usa exemplos práticos para ilustrar o posicionamento. Ao justificar a insegurança internacional em relação aos EUA, cita o recente impasse sobre o aumento do teto da dívida norte-americana. O problema continua sem solução definitiva, tendo sido apenas adiado até 2025 graças a uma lei bipartidária que suspendeu o limite por dois anos.
Devonshire-Ellis diz também que os norte-americanos são vistos hoje como “arrogantes”, pois “usam mecanismos internacionais para punir países com os quais não concordam e parecem usar o G7 como uma gangue econômica para apoiar e justificar o que fazem em outros lugares.” Não cita nominalmente a Rússia, sancionada devido à agressão à Ucrânia, mas o caso claramente se enquadra no modelo.
“Outros países estão começando a se preocupar com esse tipo de comportamento: níveis de dívida insustentáveis e a imposição de uma ‘ordem baseada em regras’ e uma economia global que só parece servir aos EUA e seus aliados imediatos, às custas de todos os outros”, disse ele. “Vários líderes globais de África, América Latina, Ásia Central e Oriente Médio, bem como China e Rússia, pararam de acreditar nos Estados Unidos como um líder global responsável.”
Com os EUA sob desconfiança, o BRICS surge como uma alternativa lógica de parceria para economias em desenvolvimento, vez que conta com as outras duas superpotências globais, China e Rússia. Tanto que Anil Sooklal, embaixador da África do Sul no BRIC, disse durante a recente reunião que cerca de 20 países manifestaram interesse em ingressar no bloco.
O próprio Sooklal, em entrevista à mesma Newsweek, endossou a análise de Devonshire-Ellis. “Vemos uma erosão da arquitetura multilateral global. Medidas unilaterais, sanções unilaterais se tornando a norma do dia, uma arquitetura global desigual e países querendo ter mais voz em termos de como a nova ordem global em evolução se desenvolve.”
Irina Yarygina, chefe do Departamento de Economia e Negócios Bancários do Instituto de Relações Exteriores de Moscou (MGIMO, na sigla em russo), segue pelo mesmo caminho. Segundo ela, a vantagem de pertencer ao BRICS é que os “países-membros não buscam dominar, mas estão interessados em relações construtivas, garantindo bem-estar seguro.”
Um primeiro movimento prático de expansão do BRICS veio com a inclusão de Bangladesh, Egito e Emirados Árabes Unidos no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) do bloco.
Cobus van Staden, pesquisador sênior do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, diz que essa situação também sinaliza a intenção dos países em desenvolvimento de manter certa autonomia. “Para países como Irã e Arábia Saudita, o NDB representa uma fonte potencial de financiamento e influência fora dos fóruns dominados pelas normas ocidentais e diferentes formas de condicionalidade ligadas ao financiamento de instituições como o Banco Mundial.”
Mundo multipolar
Embora a situação em tela sugira que o mundo atual é bipolarizado, com um bloco liderado pelos EUA e outro encabeçado por China e Rússia, van Staden diz que essa visão se restringe ao Ocidente. E justifica seu argumento com base em uma pesquisa publicada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores em fevereiro e focada na guerra da Ucrânia.
Os entrevistados em nove países da União Europeia (UE), mais EUA e Reino Unido, mostraram propensão em dizer que o conflito produziria um mundo dividido entre dois blocos, sob as lideranças de Beijing e Washington. Já os entrevistados de quatro países não ocidentais apontaram um distribuição difusa do poder, com vários países em destaque.
Irina Yarygina pende para essa segunda vertente. “É importante que todos reconheçam a multipolaridade do mundo como um novo processo de globalização e se esforcem por compromissos no âmbito da criação de um futuro melhor para a humanidade.”
Diante desse cenário, van Staden entende que é um erro da política externa norte-americana tentar forçar seus parceiros a escolher entre um lado ou outro. “Colocar muita pressão do tipo ‘nós ou eles’ sobre esses países gera o risco de eles se inclinarem mais conclusivamente para a China”, afirma. “Entre outras razões, porque na China estão muitos de seus principais parceiros comerciais e financeiros.”
INTERNACIONAL
Filho de Ali Khamenei é o novo Líder Supremo do Irã
Aiatolá Seyyed Mojtaba Khamenei substituirá o pai, morto em ataque
A assembleia dos Especialistas (ou dos Peritos) do Irã definiu que o novo líder supremo do país é o aiatolá Seyyed Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto em um ataque dos Estados Unidos, no final de fevereiro.

A informação de que o novo líder havia sido escolhido havia sido adiantada por um dos representantes da assembleia, Mohsen Heidari Alekasir, no início deste domingo (8). “A opção mais adequada, aprovada pela maioria da Assembleia de Especialistas, foi escolhida”. O nome, no entanto, não havia sido revelado.
Seyyed Mojtaba Khamenei é o segundo filho de Ali Khamenei e tem 56 anos. A escolha indica uma decisão da Assembleia de manter a linha já adotada pelo antecessor.
Mojtaba acumulou poder sob o comando de seu pai como uma figura sênior próxima às forças de segurança e ao vasto império de negócios que elas controlam. Ele se opôs aos reformadores que buscam se envolver com o Ocidente, que tenta restringir o programa nuclear do Irã.
Líder supremo
No cargo de líder supremo há 36 anos, Ali Khamenei estava no topo da estrutura de Poder da República Islâmica do Irã que, além do Executivo, do Parlamento e do Judiciário, conta com o Conselho dos Guardiões, formado por seis indicados do próprio Aiatolá Khamenei e seis indicados pelo Parlamento.
Outro órgão político típico da República Islâmica é a Assembleia dos Especialistas, ou dos Peritos, formada por 88 religiosos eleitos pelo voto popular. Essa assembleia é responsável por eleger o aiatolá que será o líder supremo do Irã. Apesar de o cargo ser vitalício, a Assembleia dos Especialistas pode destituí-lo.
Israel promete assassinar escolhido
Na última quarta-feira (4), o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, disse que o próximo líder Supremo do Irã será assassinado.
“Será um alvo inequívoco para eliminação. Não importa qual seja o nome dele ou onde ele se esconda”, disse em uma rede social.
Estima-se que a guerra de Israel e dos EUA contra o Irã já tenha custado a vida de, pelo menos, 1.332 civis, segundo autoridade iraniana. Entre as vítimas dos ataques, esteve uma escola de meninas, onde 168 crianças foram mortas, expondo os horrores que o conflito pode produzir.
* com informações da agência Reuters











